Infertilidade: uma doença silenciosa

Infertilidade: uma doença silenciosa

A infertilidade é definida como a não ocorrência da gestação após 1 ano de tentativas de maneira natural, com relações sexuais frequentes e sem o uso de métodos contraceptivos. Esta é uma das doenças mais frequentes em todo o mundo, afetando aproximadamente 50 milhões de casais e mais de 180 milhões de pessoas em todo o mundo. No Brasil, estima-se que a infertilidade acometa 8 milhões de pessoas, acometendo homens e mulheres em igual proporção.

Apesar de extremamente frequente e afetando milhões de pessoas, a infertilidade é uma doença cercada de tabus e preconceitos, não se falando abertamente sobre ela. Desta maneira, esta doença costuma afetar as pessoas de maneira silenciosa, fazendo com que quem a enfrenta não fale abertamente sobre o problema e acabe carregando um peso enorme, com tremendas repercussões na vida pessoal, conjugal e profissional. Estudos em todo o mundo mostram o impacto emocional desta doença, que muitas vezes apresenta-se acompanhada de sérias repercussões emocionais como transtornos de ansiedade, depressão e até mesmo ideação suicida.

A menstruação é um grande marco na vida das mulheres. A grande maioria delas pode se lembrar da primeira vez em que ficaram menstruadas. Porém, para quem enfrenta a infertilidade, a menstruação vem acompanhada de uma dor dilacerante. Aquele “simples” fluxo menstrual, tão desejado na adolescência, passa a vir acompanhado não apenas de algumas cólicas, mas sim de um choro e vazio enormes. Quando uma mulher deseja engravidar, a menstruação passa a significar um sinal de derrota, tristeza e sofrimento. Ela chegou. “Sim. Não deu certo. Mais uma vez”. Todo o planejamento anterior, parece descer com o fluxo menstrual abaixo. Os dias passam… os meses avançam… os anos se vão… e ele não vem! Sim. Ele não vem. O tão sonhado positivo; o tão sonhado bebê nos braços; parecem cada vez mais distantes.

Dos casais que enfrentam a infertilidade e passam por uma avaliação médica, até metade deles não iniciarão nenhum tratamento. Dos que partem para um tratamento como a Fertilização in vitro (FIV), de 20% a 30% não farão um novo tratamento em caso de falhas em tratamento anterior. E estas informações vêm de países onde o governo paga pelos tratamentos, mostrando o grande impacto emocional da doença e das falhas dos tratamentos. Assim, muitas vezes temos uma única oportunidade de “salvar” estes pacientes.

Desta maneira, temos que compreender que a infertilidade não é apenas um capricho. Não significa um simples desejo. Não podemos aceitar os tais “na hora certa ele virá”; “relaxa que ele vem”; “talvez não seja pra você”; entre tantas outras. Temos que compreender que esta doença causa estragos enormes e sendo assim, deve ser enfrentada da maneira mais precoce e efetiva possível, para que possamos minimizar todos os danos associados à infertilidade. E temos a obrigação de entender que ela não é apenas uma doença orgânica, mas sim uma doença que afeta a alma e o coração. E nós especialistas não podemos nunca negligenciar esta informação. Temos a obrigação de não apenas oferecer o melhor tecnicamente, mas ao mesmo tempo abraçar e acolher cada um dos que nos procuram. Afeto. Empatia. Fatores que não podem nunca faltar em uma consulta e um tratamento para infertilidade.

Após entender todos estes aspectos envolvidos com a infertilidade, temos que partir para a investigação deste paciente. Se falamos de infertilidade conjugal, temos que entender que não podemos olhar para uma única pessoa, mas sim para duas pessoas que devem se comportar como uma unidade. Não adianta oferecermos o melhor tratamento para a mulher, se não olharmos para o parceiro. Não adianta oferecermos o melhor tratamento para o homem, se não olharmos para a parceira. Temos que entender o que aquela paciente, aquele paciente, aquele casal deseja. Com certeza procuram por seus filhos. Mas como desejam chegar a seus filhos? Ao termos a capacidade de conhecer cada um de vocês de maneira integral, do ponto de vista biológico, psicológico e social, estaremos aptos a personalizar o tratamento da melhor maneira possível.

Assim, enquanto não compreendermos totalmente que a infertilidade é uma doença silenciosa e que vem acompanhada de estragos enormes na vida de quem a enfrenta, não estaremos oferecendo o melhor para todos. Vocês pacientes devem abrir o coração. E nós especialistas, abrirmos os nossos braços, nossos ouvidos e nossa alma. Devemos nos entregar de corpo e alma a cada uma de vocês que nos procuram. Infelizmente ainda estamos longe de poder oferecer o que todas vocês desejam, que é a garantia de que dará tudo certo. De que o tratamento com certeza trará o seu bebê. Mas não podemos nunca deixar de escutá-los, realmente ouvi-los, investigá-los, estudá-los, entendê-los e enfim, oferecer o que há de melhor para cada um de vocês pacientes. Temos que estar junto de vocês nesta escalada tão desgastante da reprodução. Temos que apoiá-los e auxiliá-los no avançar de cada degrau. Se caírem, temos que estar ali para levantá-los e mostrar que voltarão ainda mais fortes. Temos que estar ali, para mostrar que é possível. Para mostrar que nunca devem desistir deste sonho. A escalada com certeza não é fácil. Mas não tenho dúvida alguma de que a recompensa será infinita. Devemos lutar com todas as forças sempre para que possamos enfim, transformar todo o choro de tristeza anterior no choro da maior alegria do mundo: o choro da VIDA!!!

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