Como a endometriose afeta a fertilidade e seus desafios

Como a endometriose afeta a fertilidade e seus desafios

É extremamente comum a paciente que busca um profissional de Reprodução Humana declarar após uma investigação básica ou apresentar alguns exames: “Mas Dr, como assim? Endometriose? Nunca alguém havia me sinalizado de nada!”

A endometriose é uma doença que atinge cerca de 6 milhões de brasileiras. E, infelizmente, a maioria só descobre a patologia quando tenta engravidar e não consegue. A endometriose não tem cura. E não traz risco de vida. Ela impacta diretamente em doi fatores: Qualidade de vida, se apresenta uma forma dolorosa, ou Infertilidade, maior desafio principalmente em sua forma silenciosa. 

De acordo com a Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia, de 10 a 15% das mulheres em idade fértil apresentam a doença. Dessas, muitas dessas, não apresentam os sintomas clássicos. Dor é o mais comum, mas não é regra. Por isso, os diagnósticos normalmente são tardios. E pasmem, entre os casais inférteis, até 50% deles podem ter algum grau de endometriose.  

Outro grande dilema são as formas de apresentações da doença. Profunda, Superficial, Grau I, Grau II, Grau III, Uterina, Ovariana, Tubária, Intestinal. São várias classificações, relacionadas muito mais a locais de acometimento do que a dificuldade de engravidar. É possível uma mulher ter endometriose profunda, e não ter problemas para engravidar; e uma mulher ter o grau apenas superficial nas trompas e ser infértil por obstrução tubaria bilateral das mesmas.  

O grande desafio vem desde o diagnóstico, a melhor conduta a ser tomada.

O que é a endometriose? 

O útero da mulher é revestido internamento por um tecido chamado endométrio. Todos os meses, quando não há gestação, esse tecido é descamado e eliminado através do sangue da menstruação. Quando existe a presença de tecido endometrial em outros órgãos, fora do útero, aí vem o diagnóstico da endometriose.

O que acontece é que esse tecido migra para estruturas como ovários, ligamentos pélvicos, intestinos, bexiga, apêndice e vagina. Em alguns casos mais raros, ele pode ser encontrado em órgãos distantes, como pulmão, pleura e até sistema nervoso central.

O tecido do endométrio, mesmo fora útero, continua sendo estimulado mensalmente pela ação dos hormônios do ciclo menstrual. E isso provoca uma reação inflamatória. Cíclica. E que dura anos. Inflamando e desinflamando. Tornando-se aderências. Cistos. Endometriomas. A depender do local onde aquele tecido se fixou. Uma das maiores dificuldades é justamente essa. Por sua natureza progressiva, não é incomum uma paciente passar 1-2 anos investigando, e só anos depois essa lesão finalmente aparecer num exame de imagem. Não por incompetência do colega que avaliou no passado, mas porque aquela lesão era tão pequena naquele momento (e já lhe prejudicava tanto) que não era possível identificá-la.  

Essa inflamação e o seu local de acometimento é a principal culpada pela dor pélvica feminina. Os seis principais sintomas são: cólica menstrual severa ou que não melhora com remédios, dor durante a relação sexual, dor ao evacuar ou diarreia durante a menstruação, dor para urinar no período menstrual, dores entre as menstruações e, finalmente, infertilidade.

Sintomas e tratamento da endometriose

Os sintomas da endometriose variam muito de mulher para mulher. As portadoras podem ter um, todos ou nenhum desses sintomas. Na verdade, 25% das mulheres com a doença não apresentam nenhum sintoma, tornando o diagnóstico ainda mais difícil. Essa paciente que em geral é surpreendida pelo seu fertileuta. “Mas como eu tenho isso se nunca senti nada?”

A coisa torna-se complexa justamente nesse ponto. Por vezes, a paciente não sente nada e já tem lesões graves. Ou não sentia, e passou a sentir em um curto espaço de tempo, e nesse intervalo, as vezes de 1 ano, passou a ter uma lesão de endometrioma que nunca foi vista, a um cisto de mais de 5cm já em estágio cirúrgico. O que quero dizer é que essa entidade é tão complexa e multifacetada que é muito difícil seu diagnóstico e conduta.

Trata-se melhor a endometriose quando diagnosticada precocemente. No entanto, devido à superficialidade dos sintomas ou mesmo ausência deles, o diagnóstico precoce tende a se tornar bastante difícil.

Anos atras, o seu diagnóstico era por cirurgia. Colocar uma câmera na barriga da paciente era a melhor opção. Hoje a coisa mudou. O exame de ultrassom e a ressonância magnética da pelve são exames utilizados para identificar a presença da endometriose. Um simples exame de rotina, em casos mais graves, pode identificar de cara lesões. Algumas vezes, ele é capaz de detectar a doença em fase precoce.

Mas, e aqui chegamos num ponto muito delicado, em geral não é um simples ultrassom ou uma simples ressonância. Para graus mais moderados ou leves, há de se investir mais nesse diagnóstico. 

Neste momento, o colega assistente tem que lançar mão de Ultrassonografia para Pesquisa de Endometriose. Exame que não é feito por qualquer profissional, geralmente alguém bem especializado, e a realização do exame também envolve preparo intestinal com laxativos, para melhorar a avaliação das imagens. A mesma coisa a ressonância. Demanda para um bom diagnóstico aparelhos modernos e o médico que for realizar o laudo, ser especialista em pelve. 

Daí chegamos a outro ponto digno de nota. Por ser uma doença progressiva, muitas vezes necessitamos repetir e acompanhar com novos exames de tempos em tempos. Para avaliar progressão de lesões e com isso tomar a melhor conduta a cada paciente.  

No tratamento, a endometriose deve ser combatida em vários níveis. Por ser uma doença que podemos considerar crônica e inflamatória, o seu tratamento é multifatorial. Ginecologista, Endócrino, Nutricionista, Educador Físico. Todos vão influenciar. Á base são medicamentos e adoção de hábitos saudáveis, alimentação equilibrada, atividade física e consultas regulares ao ginecologista, a fim de prevenir e reduzir os fatores de risco da doença. 

E cirurgia? Também entra no arsenal terapêutico. E em alguns casos será a única saída. Porém, qualquer intervenção tem que ser pensada em conjunto com fertileuta. Pelo risco x benefício de retirar lesões e prejudicar ainda mais o quadro de infertilidade. 

Estilo de vida e a Endometriose

A endometriose, assim como as demais doenças crônicas, deve ter como aliado um bom plano alimentar. Alimentos mais inflamatórios podem influenciar no aparecimento e na progressão da doença. Principalmente por se tratar de uma doença de caráter inflamatório.

Basicamente, mulheres com endometriose devem manter uma dieta rica em fibras, com muitas frutas e vegetais. Consumir gorduras poli-insaturadas (como o ômega 3), manter um consumo adequado de cálcio e ótimos níveis de vitamina D. A saúde começa no intestino e seu bom funcionamento. 

Por outro lado, o excesso na ingestão de carne vermelha, gordura saturada, gorduras trans, álcool e cafeína, aumentam o risco da endometriose. Porém, vale ressaltar que, a proteína é essencial para a manutenção da imunidade. Portanto, é importante dar preferência a carnes e laticínios com pouca gordura.

Por que a endometriose causa infertilidade?

A endometriose afeta o aparelho reprodutor de diversas maneiras. Infertilidade pode estar associada à doença, mas não ocorre devido a um único fator. E entender como aquilo está lhe afetando é primordial para o sucesso do tratamento. Pode haver focos no útero. O funcionamento das trompas e a maturação e desenvolvimentos dos óvulos podem ficar prejudicados. Além disso, pode ocorrer alteração na receptividade do endométrio à implantação do embrião. Volto a dizer, desde casos leves, moderados a graves. Tudo dessa inflamação pode influenciar nesse mecanismo complexo que é a gravidez. 

O tratamento vai variar de acordo com a seu estadiamento de lesões e a intenção de engravidar. Caso o objetivo seja apenas melhorar a dor, o tratamento pode ser feito por meio de remédios ou cirurgia. Pacientes que já tem idade acima dos 30 anos, boa reserva ovariana, e não tem intenção de engravidar no momento, podem pensar em vitrificar seus óvulos, principalmente por conta de uma progressão de uma doença que tende somente a piorar o caso. 

Para casais que desejam engravidar imediatamente, a abordagem é diferente. Agindo de forma multifatorial, com ou sem cirurgia, com mudanças de estilo de vida e uso de medicamentos corretos, com ou sem a FIV, a paciente pode melhorar condições do seu aparelho reprodutivo e conseguir gestar com saúde.

Esse momento vai importar muito o desejo do casal, com a boa avaliação da equipe médica e definir o momento correto de cada caso. Individualizar sempre. Se cirurgia ou não. Se FIV ou não. Se coleta os óvulos primeiro e opera depois. Depende de cada caso. 

Não há dúvidas que a melhor opção é procurar um especialista em reprodução e saber qual será o caminho.

Março Amarelo

 O março amarelo é o mês de conscientização sobre a endometriose, doença que afeta a vida – às vezes de maneira drástica – de 176 milhões mulheres no mundo e de 6,5 milhões no Brasil.

Apesar de afear muitas mulheres, conseguir um diagnóstico ainda é um desafio comum à maior parte delas. Um estudo feito nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Austrália calculou em mais ou menos nove anos o tempo que se leva desde o surgimento da doença até o diagnóstico.

Metade desse período – em torno de 4 anos – costuma ser o tempo que a própria paciente leva até buscar alguma ajuda médica. A outra metade geralmente é gasta por passagens em diversos médicos, muitos exames, até se conseguir fechar o diagnóstico correto.

Por causa disso, criou-se o mês de conscientização sobre a endometriose. Comemorado mundialmente em todos os anos no mês de março, o período serve para levar informação à sociedade sobre o que é a doença e sobre como ela pode ser descoberta e controlada.

Informação é o caminho. Confiança na sua equipe e no seu médico assistente, cercar-se de bons profissionais e fazer sua parte em mudanças de estilo de vida é a chave para conseguir vencer esse grande desafio.

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