Aborto de repetição e trombofilia

Aborto de repetição e trombofilia

O aborto de repetição é um dos quadros que mais gera sofrimento e frustração para o casal que está tentando engravidar, e muitas pacientes nos perguntam qual seria a relação entre aborto de repetição e trombofilia. Em primeiro lugar, é importante entender que, de acordo com alguns autores, o conceito de aborto de repetição pode variar.

Muitos consideram aborto recorrente ou de repetição a ocorrência de duas ou mais perdas gestacionais até 20/22 semanas de gestação, espontâneas, consecutivas, excluindo-se as gestações ectópicas. Indicam a realização de exames para investigação já a partir da segunda perda. Outros, consideram que a paciente tenha essa patologia apenas após três perdas gestacionais, considerando desnecessária a investigação específica antes do terceiro aborto.

O aborto espontâneo, único, isolado, não representa, a princípio, motivo para preocupação ou investigação adicional. Na maioria das vezes, está relacionado a alguma alteração cromossômica do embrião. Acomete 15% a 30% das mulheres que engravidam. Já os abortos de repetição têm prevalência de 1% a 5% e, em mais ou menos 50% das vezes, não há causa esclarecida, mesmo após a realização de todos os exames. Assim, podem estar relacionados à idade materna ou paterna avançada, causas genéticas (alterações no cariótipo dos pais), causas hormonais (principalmente as alterações da tireoide), alterações anatômicas (que alterem o formato da cavidade uterina), infecções e à trombofilias. Estas últimas, sempre despertam muita curiosidade e interesse das pacientes.

As trombofilias são condições pouco comuns. Correspondem a um conjunto de alterações hereditárias ou adquiridas, que provocam modificação no sistema de coagulação, favorecendo a formação de coágulos (trombos) na circulação. É como se o sangue se tornasse mais espesso.

Com essa maior tendência à formação de coágulos, tromboses mínimas podem ocluir os pequenos vasos da circulação placentária, prejudicando a chegada de sangue para o feto. Esta seria a causa da parada de desenvolvimento da gestação e do aborto.

Há dois tipos de trombofilias: hereditárias e adquiridas. Os estudos têm mostrado que as adquiridas são mais frequentemente relacionadas ao aborto de repetição. São aquelas causadas por anticorpos que a mulher adquire ao longo da vida e que levam a SAAF (Síndrome de Anticorpos Antifosfolipídeos). Exames de sangue podem identificar estes anticorpos que são, principalmente, o Anticorpo Anticoagulante Lúpico, Anticorpo Anticardiolipina, e o Antibeta 2 glicoportiena-1. Para fazer o diagnóstico, é necessário que um destes anticorpos seja persistentemente positivo, em, pelo menos, duas dosagens, com intervalo de 12 semanas.

Já as trombofilias hereditárias são causadas por mutações em genes específicos, que são herdadas da família. Elas estariam mais relacionadas à perdas gestacionais tardias e à tromboses na gestação. Devem ser investigadas quando há histórico destas complicações em gestações anteriores e quando há parentes de primeiro grau da gestante que tenham tido quadro de trombose que possa ser de origem genética. Também há exames de sangue que detectam essas mutações (Fator V Leiden, Mutação do Gene da Protrombina, Proteina S, Proteína C, Antitrombina III).

Quando o diagnóstico de trombofilia é feito, torna-se possível realizar um tratamento específico para evitar as complicações. Indica-se o uso de medicação anticoagulante preventiva (heparina) durante toda a gestação, para evitar a formação dos coágulos e garantir que o sangue chegue adequadamente à placenta e ao bebê. Há casos em que o AAS deve ser associado à heparina. É necessário um acompanhamento rigoroso durante toda a gravidez, garantindo, assim, a saúde da futura mamãe e do bebê.

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