A jornada genética de cada indivíduo começa bem antes do nascimento, através do que se herda dos pais, perdurando por meio do que é transmitido aos filhos. Mas, nela está também a epigenética, que no caso da reprodução humana se refere à influência do ambiente uterino na expressão genética do futuro bebê.

Genética e fertilidade

Dentro da reprodução humana, a genética é um componente fundamental, já que o sucesso da gravidez depende em grande parte que a composição genética do embrião esteja dentro do necessário para gerar uma vida. Porém, não é só isso, também existe uma conversa entre útero e embrião que precisa ocorrer no momento certo. Entretanto, antes da formação do embrião, analisando o DNA dos futuros pais, já é possível ter a informação mais básica da genética do casal, que poderá definir as probabilidades de sucesso do tratamento e necessidade de testes genéticos específicos.

Testes genéticos em ordem de período de realização

Exames genéticos antes de iniciar o tratamento da infertilidade:

Exame Cariótipo de Banda G do casal

É uma das análises mais antigas e consolidadas e pode ser solicitada em diferentes momentos da vida. O cariótipo é um exame indispensável no diagnóstico da fertilidade do casal, capaz de explicar a infertilidade sem causa aparente ou um alto risco para a Síndrome de Down e abortos. Pois, grande parte das alterações cromossômicas que pode ter um impacto reprodutivo não causam sintomas. Ou seja, são detectadas somente quando o estudo genético é realizado.

Exames genéticos para análise dos espermatozoides

Quando a investigação da fertilidade do casal começa, normalmente a mulher recebe uma lista grande de exames para realizar e o homem recebe apenas a solicitação de um espermograma. Dependendo do resultado desta verificação, exames adicionais para a análise genética dos espermatozoides são solicitados.

Os testes genéticos para analisar os espermatozoides são SAT e FRAG.

SAT

Analisa alterações dos cromossomos 13, 18, 21, X e Y no esperma, que são os principais cromossomos ligados a abortos espontâneos e nascimentos de bebês com síndromes genéticas.

FRAG

A fragmentação do DNA espermático pode ser a causa da infertilidade masculina, mesmo quando todos os parâmetros do espermograma estão dentro da normalidade. Contudo, o risco de fragmentação do DNA é maior quando o resultado do espermograma for alterado ou se o paciente tiver um diagnóstico de varicocele.

Na maioria dos casos, a fragmentação do DNA é capaz de ser revertida, aumentando as chances de sucesso da gravidez. A fragmentação do DNA espermático pode ser alterada em consequência de um estilo de vida pouco saudável, por isso, sua incidência é considerável.

Exames genéticos para prevenção de doenças hereditárias

Com a ajuda da medicina reprodutiva é possível superar os obstáculos da infertilidade e prevenir a passagem de doenças hereditárias aos descendentes. Alguns desses exames são realizados inclusive para casais antes de engravidar naturalmente que querem avaliar o risco de surgimento de uma doença genética no bebê.

CGT – Painel de Portadores

Também conhecido como teste de compatibilidade genética, o CGT é um painel que avalia o risco de doenças que se manifestam a partir do pai e da mãe serem portadores de uma alteração em um gene comum. Este tipo de coincidência implica em um alto risco (25%) de gerar um filho com uma doença autossômica recessiva.

Aproximadamente 80% dos casos de doenças autossômicas recessivas não apresentam histórico na família. Apesar de os casais consanguíneos e grupos étnicos específicos possuírem maior risco para esse tipo de doenças genéticas, uma coincidência também pode ocorrer com qualquer casal. Alguns exemplos mais comuns de doenças autossômicas recessivas são Atrofia Muscular Espinhal (AME) e Anemia Falciforme.

Certas doenças genéticas não precisam que o pai e a mãe sejam portadores para se manifestarem, como é o caso das doenças autossômicas dominantes. Esse tipo de doença genética normalmente se manifesta antes em alguém na família. Por essa razão, são situações as quais a necessidade de procurar apoio de aconselhamento genético para analisar a possibilidade de prevenção é percebida, sendo, assim, realizados exames de diagnóstico para concluir a avaliação do risco de ter filhos afetados. Quando o risco de manifestação de uma doença específica é identificado e a possibilidade de prevenção é constatada, é necessária uma Fertilização in vitro (FIV) com análise dos embriões através do teste PGT-M, para prevenir que o futuro bebê não tenha a doença.

PGT-M

Um dos avanços mais significativos da genética reprodutiva é a possibilidade de prevenir doenças genéticas. Essas patologias raramente têm cura e normalmente afetam toda a família de forma muito intensa, além de gerar altos custos em medicamentos e tratamentos paliativos que serão necessários para o resto da vida.

Exames genéticos para aumentar chances de gravidez após FIV e prevenir síndromes genéticas

Atualmente, ficam em 30% as chances de nascimento após uma FIV, podendo ser inclusive inferior se a idade materna for superior a 38 anos. Vários fatores influenciam nessa baixa efetividade, sendo a genética do embrião e a interação entre embrião e útero materno os dois principais. Por esta razão, é cada dia mais comum que ao realizar uma FIV os médicos utilizem os recursos que o avanço da genética proporcionou para elevar as chances de nascimento de um bebê saudável, reduzindo as taxas de aborto e número de ciclos necessários até alcançar o sucesso do tratamento. 

EMBRIÃO

Atualmente, existem duas opções de análise genética embrionária que proporcionam informações sobre a saúde cromossômica do embrião. A primeira delas é o PGT-A, considerado o diagnóstico definitivo com 98% de precisão, exigindo somente uma biópsia embrionária. Já o teste EMBRACE, que analisa o DNA do embrião na gota, é cultivado no laboratório, estabelecendo, assim, uma ordem de embriões de maior potencial de ser cromossomicamente normal, guiando, desta forma, a ordem de transferência de embriões. Veja os detalhes dos dois testes.

PGT-A

O teste genético pré-implantacional para aneuploidias embrionárias é o mais conhecido e realizado nos tratamentos de fertilidade. Realizado a partir da retirada de algumas células do embrião, o PGT-A permite identificar os embriões cromossomicamente normais e, portanto, com maior chance de implantação, menor risco de aborto e síndromes genéticas (cromossômicas), como a Síndrome de Down.

EMBRACE

A análise cromossômica do embrião através do meio de cultivo embrionário é um teste genético lançado em julho de 2020. Sua grande vantagem é dispensar a temida biopsia do embrião. Por isso, é um exame que pode ser benéfico para pacientes sem indicação do teste padrão ouro (PGT-A), que exige a biopsia embrionária. Desta forma, as pacientes têm a opção de escolher os embriões com maior probabilidade de serem cromossomicamente normais, o que aumenta a chance de sucesso da FIV.

ENDOMÉTRIO

Como o embrião precisa crescer no útero, fica clara sua importância para o sucesso da gravidez. Os testes genéticos do endométrio permitem obter informações da receptividade endometrial e do equilíbrio de bactérias, além da solução para corrigir o problema, caso algo seja identificado.

Teste ERA

A sincronia entre útero materno e embrião é indispensável para o sucesso da gravidez. Mesmo um embrião cromossomicamente saudável e livre de qualquer doença não implantará se o útero não estiver receptivo. O momento de receptividade endometrial para três em cada dez pacientes em tratamento de Fertilização in vitro está fora do padrão clássico do tratamento e precisa ser personalizado. Para identificar o momento ideal para transferir o embrião de forma individualizada, o teste ERA provou ser muito importante, elevando a taxa de nascimento em comparação com uma FIV com embriões frescos e congelados.

 Testes EMMA e ALICE

Os testes EMMA e ALICE utilizam tecnologia de sequenciamento genético da população de bactérias que habitam o interior do útero (endométrio). Quando o microbioma endometrial está em desequilíbrio ou com uma infecção provocada por patógenos, o risco de falhas de implantação e aborto se elevam. Estudos indicam que cerca de 30% das pacientes em tratamento de infertilidade são afetadas pela endometrite crônica infecciosa e que essa taxa pode chegar a 66% em pacientes com histórico de repetidas falhas de implantação e aborto de repetição. Os testes ERA, EMMA e ALICE podem ser realizados ao mesmo tempo, a partir de uma única biopsia do endométrio.

Estudo genético do aborto

Por último, mas não menos importante está o teste genético que analisa se um aborto foi provocado por uma alteração cromossômica. Esta é a principal causa das perdas gestacionais de primeiro trimestre de gravidez. 50% das perdas gestacionais ocorrem por aneuploidia durante o 1º trimestre de gestação. Já as perdas gestacionais por aneuploidia durante o 1º trimestre da gravidez em tratamentos de FIV acontecem em 60% dos casos.

O teste genético POC analisa o material do aborto e uma amostra de sangue materno para a análise e comparação do DNA. A tecnologia empregada para a realização do POC (molecular) se diferencia de um cariótipo convencional (citogenético) de estudo do aborto, pois não é preciso cultivar células para a obtenção de resultados. O cultivo celular é o principal responsável de resultados inconclusivos após o estudo citogenético clássico. Além disso, se o resultado da análise molecular é normal, é realizada outra avaliação molecular para saber se existe contaminação materna no material estudado. Por isso, a coleta do sangue materno para a realização do exame.

* Colaborou como fonte neste texto a geneticista Marcia Riboldi, CEO do Igenomix Brasil e Argentina.